Ano novo?

Eu olhava para o alto. Terminava a contagem regressiva e os fogos explodiam em luzes multicoloridas. Eu olhava um pouco mais para cima, na direção do céu estrelado, olhando para a profundidade do universo e todas as coisas que poderiam – ou não – existir bem perto ou longe daqui. E percebia, também, como nada daquilo importava.

Senti vontade de gritar (quase o fiz, não fosse meu poderoso autocontrole). Ao invés disso, guardei mais um pouco de mágoa em meu coração. Talvez a culpa fosse minha, aliás, provavelmente era; ao menos parcialmente. Senti vontade de sair dali correndo e nunca mais parar. Senti ódio, medo, fúria e solidão entre outras coisas; um de cada vez e, às vezes, vários ao mesmo tempo.

Senti, também, a areia sob meus pés (ou sob as sandálias, mais precisamente) e o vento que acariciava meu rosto e me bagunçava os cabelos. Fechei os olhos para sentir melhor, ouvindo o som das ondas do mar sobrepondo, parcialmente, os gritos da multidão e sua festa de celebração pelo fim de mais um ano e de expectativa pelo ano que viria – como se este fosse ser muito diferente dos outros.

De um súbito abri os olhos, pela sensação de um abraço inesperado. Logo vi meus amigos aglomerados e brindando em motivo da renovação de um novo ciclo de tempo de início arbitrário. Sei que poderia ignorar a natureza cética desse pensamento ao menos por um instante, mas era o que eu realmente sentia naquele momento; para mim não havia diferença entre o minuto anterior e o seguinte à meia-noite. O abraço, por acaso, durou pouco e foi perceptivelmente desprovido de um sentimento real, pois a euforia da festa era o único motivo.

Nem sei sequer por que eu estava ali. Bem, é certo que me convidaram a passar a virada de ano na praia e, embora eu não tivesse a mínima perspectiva de diversão – de fato, talvez fosse mais interessante ficar em casa e só – aceitei a proposta apenas quando soube das pessoas que estariam presentes. Nunca fui de seguir meus impulsos e sentimentos, mas imaginei que houvesse uma chance de, pelo menos desta vez, me livrar da solidão.

Vã esperança, naturalmente. Pois, quando os ponteiros se juntaram naquela noite, não eram os meus lábios que estavam sendo tocados por quem eu esperava. Talvez se eu tivesse aplicado um pouco mais de esforço ou se eu aumentasse minha espontaneidade. É possível que seja apenas uma questão de destino – ou determinismo, ou sincronicidade, o nome não importa. Minha vida foi sempre repleta de “ses” e “talvezes” e já era costume. Um hábito difícil de largar.

Na verdade, eu simplesmente me cansei. Todo empenho que eu pudesse investir já o tinha feito. Sobrara apenas a fadiga e o enfado depois de uma vida relativamente curta porém intensa. Agora a falta estava tão fincada na minha existência que já tínhamos uma relação simbiótica e não sei se conseguiria viver sem ela. Meramente não me importava mais.

O resto daquele dia passou tão rápido, ou tão indiferente, que eu nem percebi. Por mais que eu me concentre, não consigo me lembrar do que aconteceu. Só sei que no dia seguinte voltava para casa e para a rotina diária. Esperava que isso ocupasse minha mente e fizesse me esquecer do vazio. Tudo era o fim, mesmo sem ter começado.

No fim, a dor ainda estava lá. A mesma dor de sempre. A dor que levara a fazer o que fizera. A dor a qual já me acostumara. Quando dói todo dia é como se não doesse mais. Ou como se a dor já fizesse parte do metabolismo. Meu coração já havia se ressecado.

Até que algo diferente aconteceu. Peguei meu celular apenas para ver a hora e notei que havia uma mensagem de texto não lida. Uma mensagem totalmente inesperada vinda da pessoa já inesperada. O coração ressecado acelerou e não pude acreditar no que lia (de fato, li e reli dezenas de vezes).

O destino – ou o determinismo, ou a sincronicidade – dera-me outra oportunidade. Eu não sabia o que fazer. Então eu apenas fiz.

(Esta é a primeira das 52 crônicas que pretendo publicar este ano; exatamente uma por semana, toda segunda)

A segunda pode ser encotrada aqui.

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