Não sei se eu queria 1

“Queria voltar a ser criança. Tudo era tão mais fácil naquele tempo.”

Essa frase me deixou pensante desde o momento em que a ouvi. Afinal, eu também queria ser criança novamente – e quem não queria? Era bem mais fácil. Na verdade, não; era tão – ou mais – difícil do que hoje. Pelo menos pra mim.

Todos os outros talvez tivessem mesmo uma infância fácil: faltavam-lhe preocupações além da bola que caiu no quintal daquele velho ranzinza. E isso se resolvia fácil quando aquele que era mais corajoso (ou exibido) pulava o muro e voltava com a bola para continuar a brincadeira, não sem deixar de ouvir os gritos e xingamentos do senhor Carvalho.

Para mim, porém, era tudo bem diferente. Eu era extraordinário – no sentido de ser além do ordinário, além do comum. Não conseguia me divertir da mesma forma que os outros; nem chegava a entender qual era a graça do que faziam. Não conseguia nem entender o que diziam, pois para mim não existiam entrelinhas. Sentia que era diferente e, aos poucos, criei o meu próprio mundo dentro de uma bolha e adotei a solidão.

Pra falar a verdade, não tenho tantas lembranças assim da minha infância; e as poucas que tenho não são tão boas. Sempre fui o nerd da turma – antes mesmo de saber que tal palavra existia. Sofri aquilo que hoje chamam de bullying e isso me tornou mais fraco e mais forte ao mesmo tempo. Tive poucos amigos – se puder chama-los assim – e que se resumiam a alguns colegas com quem conversava de vez em quando. Mesmo que eu tentasse me enturmar, as ideias e princípios da maioria não condiziam com o que eu pensava e acreditava.

Vez ou outra eu abria uma janela da minha bolha invisível pra ver o que acontecia no mundo exterior. Porém, nada me instigava a sair do meu próprio mundo; tudo que eu via era fútil e vazio. Sempre imaginei ser único – na verdade, acho que realmente fui. Por mais próximo que fossem as pessoas, ainda estavam muito distante de mim; ninguém compartilhava a minha mania de pensar demais.

Mania, aliás, que cultivei desde cedo e não larguei até hoje. Desde pequeno me vejo filosofando, tentando descobrir os mistérios do mundo. O que para todos era óbvio, a mim era algo inexplicado. Talvez seja tal busca – em grande parte infrutífera – que tenha me gerado tal melancolia, misantropia e solidão. Nem tudo é uma escolha.

Se eu quiser voltar a ser criança, seria para mudar algumas coisas. Não tudo, pois, apesar dos pesares, ainda me orgulho de certas atitudes. Se fosse pra voltar, que fosse com a visão de mundo que tenho hoje; assim eu poderia procurar o lugar certo onde as pessoas certas estavam; o lugar onde me tratassem como eu deveria ser tratado. E isso seria, provavelmente, até mais difícil do que minha infância já foi.

Hoje tenho facilidades que não existiam naquela época. A internet é o maior exemplo de todos. Com essa grande rede, consigo manter contato com pessoas que, embora muito distantes, compartilham as mesmas ideias que eu. Já não me vejo tão sozinho como me via antes. Descobrir que não é único pode parecer ruim para algumas pessoas, no entanto para mim foi um alívio. Aprendi que não sou anormal, mas só que faço de parte de outra normal. E isso fez muita diferença.

Ainda não aprendi a conviver com o mundo. E às vezes ainda preciso me esconder na minha bolha pra me sentir melhor – posso ficar lá por dias, se for necessário. E, naturalmente, não consigo fugir do meu instinto humano e sinto falta de contato. Sinto falta, sim, de alguém para ficar ao meu lado e em ajudar a sair do buraco; alguém pra dizer que precisa de mim. Todavia, por enquanto – e talvez por muito tempo – vou ter que me acostumar com a solidão. A mesma que me perseguiu na infância. Não está tão diferente do que foi e, definitivamente, não era mais fácil naquele tempo.

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