{"id":214,"date":"2011-03-02T10:00:40","date_gmt":"2011-03-02T13:00:40","guid":{"rendered":"http:\/\/vidaolivro.com\/?p=214"},"modified":"2013-02-20T17:08:28","modified_gmt":"2013-02-20T20:08:28","slug":"capitulo-2-parte-1","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/georgemarques.com.br\/vida\/capitulo-2-parte-1\/","title":{"rendered":"O in\u00edcio da coisa toda &#8211; Parte 1"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: justify;\">\u2014 O que acha de come\u00e7armos agora mesmo? Podemos fazer uma pesquisa na biblioteca do IP \u2013 Juliana sugeriu ao sa\u00edrem do estabelecimento.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2014 \u00c9 uma boa ideia, mas eu vou ter que passar em casa antes. N\u00e3o trouxe meu material para a aula.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2014 Ok. Eu te dou uma carona.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><!--more-->\u2014 N\u00e3o, \u00e9 totalmente fora do caminho. A gente se encontra l\u00e1 mais tarde.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2014 Ah, deixa disso. Se voc\u00ea depender daquele trem, vai chegar l\u00e1 s\u00f3 na hora da aula.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Leonardo resolveu aceitar a carona. Na verdade ele n\u00e3o queria, mas sabia que em certas situa\u00e7\u00f5es era in\u00fatil tentar discutir com Juliana. Eles andaram at\u00e9 o estacionamento que ficava a duas quadras do restaurante. Entraram no Siena sedan azul-marinho de Juliana. Ela perguntou a Leonardo se ele n\u00e3o se importava por ela dirigir e ele n\u00e3o. Ele respondeu que n\u00e3o havia motivo para se importar e que existiam coisas que ele nunca seria capaz de fazer. Ela percebeu que, como sempre, ele tinha raz\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Juliana dirigiu pela Rua Dr. M\u00e1rio Ferraz, virando \u00e0 direita na Avenida Cidade Jardim. Pegou a rampa de acesso a Rua S\u00e3o Bonif\u00e1cio e seguiu passando pela Avenida Alcides Sangirardi para entrar na Avenida Marginal Pinheiros, cujo tr\u00e1fego ainda estava tranquilo \u00e0quela hora. Saiu na Ponte do Morumbi e virou \u00e0 direita na Avenida Dr. Chucri Zaidan. Continuou pela Rua Henri Dunant, virando \u00e0 direita na Rua Amaro Guerra e \u00e0 direita novamente na Rua Ant\u00f4nio das Chagas, onde Leonardo morava. O trajeto levou cerca de quinze minutos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Enquanto abria a porta, Leonardo convidou Juliana a entrar e perguntou se ela queria algo para beber. <em>Ele est\u00e1 aprendendo<\/em>, ela pensou e respondeu que aceitava um copo de \u00e1gua. Ele a serviu e subiu para o quarto dizendo a ela que n\u00e3o demoraria. Leonardo pegou seu fich\u00e1rio e um livro pesad\u00edssimo sobre desenvolvimento de softwares e enfiou-os na mochila que ficara bem volumosa. Juliana costumava dizer que o \u00fanico exerc\u00edcio f\u00edsico que Leonardo praticava era carregar aquele peso nas costas. Ele olhou pelo quarto e notou uma pasta sobre a escrivaninha. Esta continha a resenha impressa que ele deveria entregar na aula daquele dia. Ele a pegou e a colocou tamb\u00e9m na mochila. Apagou a luz e desceu, encontrando Juliana sentada no sof\u00e1 da sala.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2014 Voc\u00ea n\u00e3o me ofereceu um lugar para sentar, mas presumi que n\u00e3o se importaria se eu ficasse aqui.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2014 Desculpe, eu esqueci.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2014 Eu sei. Talvez um dia voc\u00ea aprenda. Est\u00e1 pronto?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2014 Sim. Vamos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Leonardo trancou a porta de casa e os dois voltaram para o carro. Juliana guiou at\u00e9 \u00e0 Avenida Marginal Pinheiros e seguiu por esta at\u00e9 pegar uma sa\u00edda na Avenida das Na\u00e7\u00f5es Unidas. Contornou para acessar a Ponte da Cidade Universit\u00e1ria terminando na Rua Alvarenga. Virou \u00e0 direita na Rua Eng. Teixeira Soares chegando \u00e0 portaria um do campus. Identificou-se com seu cart\u00e3o de estudante para conseguir acesso. Seguiu pela Avenida Prof. Melo Morais e buscou um lugar para estacionar pr\u00f3ximo ao Instituto de Psicologia. No trajeto, ela explicara alguns conceitos b\u00e1sicos sobre personalidade dos quais ela tinha um m\u00ednimo conhecimento.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2014 \u00c9 dif\u00edcil definir o que \u00e9 personalidade. Muitos autores tentaram, mas n\u00e3o existe nenhum consenso na \u00e1rea \u2013 Juliana come\u00e7ou.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2014 E qual \u00e9 a sua defini\u00e7\u00e3o?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2014 Bem, a personalidade representa a individualidade, a identidade. \u00c9 uma marca pessoal, assim como a impress\u00e3o digital. Mas \u00e9 male\u00e1vel, se altera de acordo com as experi\u00eancias. O fato \u00e9 que se duas pessoas diferentes passarem pelas mesmas experi\u00eancias, n\u00e3o \u00e9 certo de que elas agir\u00e3o da mesma forma. Por isso, pode-se dizer que a personalidade \u00e9 gen\u00e9tica, apesar de ser mut\u00e1vel. Resumindo, acho que a personalidade \u00e9 um conjunto organizado de fatores que implicam na decis\u00e3o do que a pessoa deve ou n\u00e3o fazer.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2014 Seria correto dizer que a personalidade \u00e9 a forma que cada pessoa tem de ver o mundo?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2014 Talvez. Isso pode ser verdade. \u00c9 pass\u00edvel de considera\u00e7\u00e3o a ideia de que eu n\u00e3o veja as coisas do mesmo jeito que voc\u00ea.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2014 Nesse caso, a personalidade \u00e9 s\u00f3 uma quest\u00e3o de percep\u00e7\u00e3o. Todas as nossas percep\u00e7\u00f5es vem atrav\u00e9s dos cinco sentidos. Teoricamente, os impulsos captados s\u00e3o os mesmo em todas as pessoas. A forma de interpret\u00e1-los \u00e9 diferente em cada um. A personalidade \u00e9, ent\u00e3o, um filtro.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2014 Acho que entendi o que quer fazer. Voc\u00ea quer encontrar o modo n\u00e3o et\u00e9reo de ver as coisas. Se tudo for f\u00edsico, \u00e9 mais f\u00e1cil para imaginar um meio de simular.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2014 Sim, \u00e9 exatamente isso o que quero. Eu tento imaginar tudo isso como se fosse um programa de computador. Se eu conhe\u00e7o o conjunto de entradas e sa\u00eddas, basta imaginar uma forma de processar as informa\u00e7\u00f5es para que tudo se encaixe.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2014 Mas voc\u00ea tem que levar outros pontos em considera\u00e7\u00e3o. Os instintos s\u00e3o iguais em todo mundo. Embora possa haver falhas gen\u00e9ticas capazes de alterar certos detalhes, todos sentem fome, sede, frio, dor, etc. Al\u00e9m disso, sentimentos como medo e raiva podem ser considerados instintos primitivos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2014 Hm\u2026 \u2013 Leonardo fez uma pausa para pensar. \u2013 Acho que teremos muito trabalho pela frente \u2013 disse por fim.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2014 \u00c9\u2026 \u2013 Juliana suspirou.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A Cidade Universit\u00e1ria \u00e9, definitivamente, uma cidade. Situada na zona oeste de S\u00e3o Paulo, foi inaugurada em 1968 e conta com uma \u00e1rea de cerca de 4700 km\u00b2. Era onde ficava a sede administrativa da Universidade de S\u00e3o Paulo, entidade ligada ao governo do estado de S\u00e3o Paulo, e grande parte dos seus institutos de ensino. A USP fora fundada em 1934 e era reconhecida como uma excelente institui\u00e7\u00e3o de ensino superior. Em alguns rankings mundiais estava em torno da cent\u00e9sima posi\u00e7\u00e3o e oscilava entre a primeira e a segunda da Am\u00e9rica Latina, competindo com uma universidade mexicana. Era, sem d\u00favida alguma, o melhor lugar para cursar o ensino superior no Brasil.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Chegaram \u00e0 biblioteca do IP por volta das quinze e trinta. Num dos computadores dispon\u00edveis, acessaram ao DEDALUS, o sistema de busca da biblioteca da USP, e procuraram pela palavra-chave \u201cpersonalidade\u201d. Depararam-se com mais de mil resultados. <em>Era de se esperar em uma biblioteca de psicologia<\/em>, pensou Juliana. A lista continha n\u00e3o apenas livros, mas tamb\u00e9m artigos cient\u00edficos e teses de doutorado. Resolveram filtrar a pesquisa usando o termo \u201cteoria da personalidade\u201d, que remeteu a uma lista de pouco mais de cinquenta itens. Escolheram alguns que pareciam mais pertinentes, foram at\u00e9 a estante, pegaram os volumes e ocuparam uma das mesas. Com uma folheada geral, viram que, realmente, teriam muito trabalho pela frente. Leonardo abriu seu MacBook para j\u00e1 come\u00e7ar a fazer algumas a anota\u00e7\u00f5es. Juliana, que j\u00e1 tinha uma vaga no\u00e7\u00e3o sobre o assunto, o guiou pelo conte\u00fado dos textos e ele digitou algumas linhas sobre a estrutura da personalidade.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ficaram por l\u00e1 at\u00e9 \u00e0s dezoito horas. Tinham uma ideia geral do assunto, mas tudo estava muito vago. Leonardo pegou emprestado o livro <em>Os Tipos Humanos: A Teoria da Personalidade<\/em>, de Luiz Pasquali, para criar uma base e o enfiou na mochila onde quase n\u00e3o coube. Os dois foram at\u00e9 uma das instala\u00e7\u00f5es do campus conhecida como \u201cbandej\u00e3o\u201d, que consistia em um restaurante <em>self-service<\/em> dispon\u00edvel para os alunos e subsidiado parcialmente pela Universidade, tornando as refei\u00e7\u00f5es barat\u00edssimas. O card\u00e1pio n\u00e3o era excelente, mas a comida n\u00e3o era ruim.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Enquanto jantavam, discutiam o assunto que tinha estudado durante a tarde. Juliana tinha seu ponto de vista e achava que Leonardo extrapolava demais \u00e0s vezes. Ela acreditava que ele tinha uma vis\u00e3o muito \u201cci\u00eancias exatas\u201d da coisa toda, o que tornava dif\u00edcil a explica\u00e7\u00e3o das nuances. Nem tudo era t\u00e3o r\u00edgido quanto ele acreditava, ainda mais quando se tratava de um assunto t\u00e3o misterioso e inexplorado como a mente humana. Ainda estava descrente do sucesso, mas apoiava o amigo, pois sabia que seria pior, al\u00e9m de in\u00fatil, tentar convenc\u00ea-lo a desistir da ideia. Enquanto isso, teria de ser paciente e aturar seus devaneios mirabolantes.<\/p>\n<p>Ap\u00f3s a refei\u00e7\u00e3o, combinaram de encontrar-se no dia seguinte para continuar a pesquisa, despediram-se e seguiram cada um \u00e0 sua aula, a de Juliana no IP, o Instituto de Psicologia, e Leonardo foi para a POLI, a Escola Polit\u00e9cnica.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u2014 O que acha de come\u00e7armos agora mesmo? Podemos fazer uma pesquisa na biblioteca do IP \u2013 Juliana sugeriu ao sa\u00edrem do estabelecimento. \u2014 \u00c9 uma boa ideia, mas eu vou ter que passar em casa antes. N\u00e3o trouxe meu material para a aula. \u2014 Ok. 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