{"id":176,"date":"2011-02-02T10:00:51","date_gmt":"2011-02-02T12:00:51","guid":{"rendered":"http:\/\/vidaolivro.com\/?p=176"},"modified":"2013-02-20T17:02:17","modified_gmt":"2013-02-20T20:02:17","slug":"capitulo-1-parte-1","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/georgemarques.com.br\/vida\/capitulo-1-parte-1\/","title":{"rendered":"O g\u00eanio, a garota e a ideia \u2013 Parte 1"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: justify;\">Ele acordou no meio da madrugada. Tivera um sonho estranho, mas que lhe dera um <em>insight<\/em> muito interessante. Acendeu o abajur que ficava no criado-mudo ao lado da cabeceira de sua cama. Pegou seu bloco de anota\u00e7\u00f5es que estava sempre a m\u00e3o e anotou algumas palavras-chave e refer\u00eancias das quais ele sabia que lembraria mais tarde. Ele acreditava ser uma ideia genial. Pegou o seu <em>smartphone<\/em> pensando em ligar para algu\u00e9m. Percebeu que pouco havia se passado das tr\u00eas da manh\u00e3. Embora estivesse ansioso, n\u00e3o era nada urgente que n\u00e3o pudesse esperar pelo dia. Largou o telefone sobre o m\u00f3vel, apagou a l\u00e2mpada, cobriu-se e voltou a dormir.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><!--more-->\u00c0s nove horas, Leonardo levantou-se da cama, ligou o computador e foi ao banheiro para lavar o rosto e as m\u00e3os. A casa estava vazia, pois seus outros dois moradores, a m\u00e3e e a irm\u00e3 dele, j\u00e1 haviam sa\u00eddo para suas respectivas rotinas di\u00e1rias. Desceu do quarto \u00e0 cozinha para aprontar seu caf\u00e9-da-manh\u00e3. Preparou em um prato um par de bananas amassadas e misturadas com <em>granola<\/em>, que, por sua vez, consistia em uma mistura pronta de cereais (especialmente aveia), castanhas e frutas secas como passas e damascos caramelizadas em mel. Era o desjejum que ele costumava consumir por ser nutritivo e saud\u00e1vel , al\u00e9m de saboroso.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Leonardo era alto. N\u00e3o tanto quanto um jogador de v\u00f4lei, mas, em geral, se destacava na multid\u00e3o. Tinha a pele clara e possu\u00eda cabelos castanhos e finos que eram sempre mantidos curtos. Em seu rosto repousavam calmos olhos castanho-escuros e uma express\u00e3o neutra que raramente se alterava. Possu\u00eda uma boa apar\u00eancia, mas n\u00e3o era do tipo que derretia os cora\u00e7\u00f5es femininos. Era magro, com bra\u00e7os e pernas longas. Seu corpo n\u00e3o tinha nada de definido, pois nunca praticava exerc\u00edcios f\u00edsicos, quando muito, jogava uma partida ou duas de <em>ping-pong <\/em>ou corria, quase sem f\u00f4lego, at\u00e9 o ponto de \u00f4nibus para n\u00e3o se atrasar.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Voltou para o quarto com o prato, sentou-se \u00e0 escrivaninha e abriu seu leitor de RSS favorito. Ele acompanhava os <em>feeds<\/em> de alguns importantes sites de not\u00edcias, incluindo alguns internacionais, para saber das novidades sobre pol\u00edtica, economia e atualidades. Tamb\u00e9m recebia conte\u00fado dos grandes blogs de tecnologia, especialmente de inform\u00e1tica, que era sua \u00e1rea de estudo. Ria com tiras de quadrinhos c\u00f4micas que, muitas vezes, s\u00f3 eram engra\u00e7adas pelos chamados <em>geeks<\/em>: pessoas com afixa\u00e7\u00e3o por assuntos espec\u00edficos, como tecnologia. E n\u00e3o deixava de acompanhar as postagens no Twitter.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Apesar de ser considerado, com raz\u00e3o, um <em>geek <\/em>de inform\u00e1tica, Leonardo tamb\u00e9m tinha alguns conhecimentos, mesmo que vagos, em outras \u00e1reas da ci\u00eancia, como psicologia, lingu\u00edstica, economia, qu\u00edmica, hist\u00f3ria e alguns outros assuntos esparsos. Tinha, al\u00e9m disso, grande habilidade em el\u00e9trica e eletr\u00f4nica devido ao aprendizado emp\u00edrico quando crian\u00e7a, desmontando r\u00e1dios, controles remotos e outros dispositivos, para frustra\u00e7\u00e3o de sua m\u00e3e que n\u00e3o sabia como agir para manter seus aparelhos intactos. Ele adquirira conhecimento t\u00e9cnico com a descoberta da inform\u00e1tica e, mais especificamente, da <em>internet<\/em>, conhecida como a grande rede mundial de computadores, embora ele soubesse que este termo n\u00e3o era bem acurado.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Foi aos doze anos de idade que Leonardo se interessou por computadores. Convenceu, depois de tanto insistir, sua m\u00e3e a comprar um modelo razoavelmente caro, mas cujas especifica\u00e7\u00f5es t\u00e9cnicas justificavam o valor. Eles n\u00e3o tinham uma condi\u00e7\u00e3o de vida abastada, mas com certeza n\u00e3o eram pobres e Regiane, a m\u00e3e de Leonardo, poderia se dar ao luxo de satisfazer um desejo de seu filho. Ele ficara tremendamente feliz e a agradecera veementemente. Nunca foi costume de ele demonstrar abertamente seus sentimentos o que fez com que ela se sentisse bastante lisonjeada. Ele passou a estudar mais ainda, o que fez com que sua m\u00e3e ficasse orgulhosa. Comprar aquele computador foi algo de que ela jamais se arrependeu, embora naquele momento estivesse ainda em d\u00favida.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Com seu novo brinquedo e uma conex\u00e3o ADSL de velocidade razo\u00e1vel, come\u00e7ou a pesquisar assuntos que j\u00e1 o interessavam, como a eletr\u00f4nica. Ficou fascinado quando percebeu que a el\u00e9trica se baseava na constitui\u00e7\u00e3o e carater\u00edsticas dos \u00e1tomos. Viu que o movimento dos el\u00e9trons causados por uma diferen\u00e7a de potencial el\u00e9trico era o que gerava a energia necess\u00e1ria para mover grande parte de seus objetos do cotidiano, incluindo o computador. Interessou-se pelo funcionamento dos componentes eletr\u00f4nicos como os resistores, indutores e capacitores. Mas os que mais lhe chamaram a aten\u00e7\u00e3o foram os semicondutores: os componentes que permitiam passagem de corrente el\u00e9trica apenas em determinadas condi\u00e7\u00f5es. Desses existem os diodos, que permitem passagem de corrente em apenas um sentido, e os transistores, que permitem passagem de corrente em um sentido se houver tens\u00e3o el\u00e9trica no terceiro contato chamado de <em>gate<\/em> ou porta. Os transistores eram as bases para a constru\u00e7\u00e3o de mecanismos l\u00f3gicos eletr\u00f4nicos e para os microprocessadores dos computadores. O estudo de tais componentes despertou nele tamb\u00e9m um interesse por qu\u00edmica, j\u00e1 que o funcionamento destes se d\u00e1 por uma cuidadosa sele\u00e7\u00e3o de elementos qu\u00edmicos e do processo de dopagem dos cristais com gases.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ele costumava criar projetos eletr\u00f4nicos e mont\u00e1-los utilizando-se de dispositivos antigos que seriam descartados. Com isso ele criava grandes <em>Frankensteins<\/em> e que nem sempre funcionavam como deveria. Depois de um tempo ele se voltou para a eletr\u00f4nica digital, que consiste mais em uma forma de l\u00f3gica matem\u00e1tica do que em el\u00e9trica propriamente dita. Por isso, os circuitos podiam ser simulados atrav\u00e9s de programas de computador e n\u00e3o dependiam de que Leonardo depenasse velharias. Como evolu\u00e7\u00e3o quase natural da l\u00f3gica eletr\u00f4nica, baseada inteiramente na \u00e1lgebra Booleana, veio a l\u00f3gica de programa\u00e7\u00e3o que se utiliza de muitos recursos das teorias de Boole.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">De tanto usar a web, procurou saber como se fazia os sites que ele tanto acessava. Aprendeu como desenvolver p\u00e1ginas b\u00e1sicas em HTML, linguagem de marca\u00e7\u00e3o para gerar formata\u00e7\u00e3o nas p\u00e1ginas web, e criar recursos din\u00e2micos usando scripts e um pouco da ferramenta Flash criada pela Macromedia, empresa que foi adquirida posteriormente pela Adobe. Quanto mais se aprofundava, mas percebia que gostava. Descobriu que na \u00e1rea de programa\u00e7\u00e3o nunca se termina de aprender. E isso \u00e9 o que ele mais gostou.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Aos dezenove, Leonardo come\u00e7ou o curso de engenharia da computa\u00e7\u00e3o na Universidade de S\u00e3o Paulo, considerada a melhor do pa\u00eds. A USP \u00e9 uma institui\u00e7\u00e3o p\u00fablica de ensino muito concorrida, pois, al\u00e9m da qualidade de ensino, seus cursos de gradua\u00e7\u00e3o s\u00e3o totalmente gratuitos. Ele passou no vestibular numa das melhores coloca\u00e7\u00f5es. Neste momento, aos vinte e um, era sem sombra de d\u00favida o melhor aluno do curso. E a USP era conhecida, especialmente, por exigir muito de seus alunos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Leonardo pode ser considerado, ent\u00e3o, muito inteligente. Talvez superdotado, se isso n\u00e3o for considerado um exagero. O ponto \u00e9 que ele possu\u00eda uma capacidade de racioc\u00ednio l\u00f3gico e matem\u00e1tico muito acima da m\u00e9dia. E retinha informa\u00e7\u00f5es como uma esponja. Assim, durante seus projetos, ele baseava suas dedu\u00e7\u00f5es em pequenos detalhes dos quais a maioria de seus colegas j\u00e1 havia esquecido ou sequer tinha notado. Apesar disso, tinha mem\u00f3ria associativa: s\u00f3 lembrava-se das coisas quando pensava em algo relacionado. N\u00e3o conseguia lembrar-se de fatos aleat\u00f3rios. Se algu\u00e9m lhe perguntasse: \u201cO que voc\u00ea fez naquela festa de anivers\u00e1rio?\u201d, ele n\u00e3o era capaz de responder. Mas se perguntassem: \u201cO que aconteceu depois de cortarem o bolo?\u201d, ele conseguia recriar a cena a partir do fato informado. E por esse motivo sempre andava com um bloco de anota\u00e7\u00f5es em um lugar de f\u00e1cil acesso. Nunca deixava escapar uma ideia, por mais sem sentido que parecesse. Mesmo que viesse no meio da noite.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Ele acordou no meio da madrugada. Tivera um sonho estranho, mas que lhe dera um insight muito interessante. Acendeu o abajur que ficava no criado-mudo ao lado da cabeceira de sua cama. Pegou seu bloco de anota\u00e7\u00f5es que estava sempre a m\u00e3o e anotou algumas palavras-chave e refer\u00eancias das quais ele sabia que lembraria mais [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"spay_email":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_is_tweetstorm":false},"categories":[8],"tags":[10],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p3br6G-2Q","jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/georgemarques.com.br\/vida\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/176"}],"collection":[{"href":"https:\/\/georgemarques.com.br\/vida\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/georgemarques.com.br\/vida\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/georgemarques.com.br\/vida\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/georgemarques.com.br\/vida\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=176"}],"version-history":[{"count":9,"href":"https:\/\/georgemarques.com.br\/vida\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/176\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":271,"href":"https:\/\/georgemarques.com.br\/vida\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/176\/revisions\/271"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/georgemarques.com.br\/vida\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=176"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/georgemarques.com.br\/vida\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=176"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/georgemarques.com.br\/vida\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=176"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}