Os Barcos

Eu estava em alto mar. Sozinho. O vento era fraco e tudo o que fazia era bambolear o barco sobre as ondas calmas que não me tiravam do lugar. O céu era estranho, um cinza macabro anunciando uma tempestade que nunca parecia chegar. Via um relâmpago de vez em quando rachando o horizonte, mas sempre era longe e distante.

Com minha luneta, olhava o além. Ali, de longe, via outras coisas que aconteciam. Havia barcos que viajavam lado a lado. Pensei ver até um arco-íris num céu azul, coisa que só podia ser fruto da minha imaginação. “A Felicidade não existe,” lembrei a mim mesmo. Ou melhor: até existia, mas era carga rara e que se esvaía fácil.

Sim, havia dias difíceis. Ainda estava parado no mesmo lugar, mas tinha a impressão de que o barco viraria a qualquer momento. Sentia que logo surgiria um iceberg ao qual meu casco não resistiria e que me afundaria para sempre no oceano. Nesses dias eu me escondia no convés, sob as cobertas, implorando para que aquela sensação passasse. Cheguei a derramar algumas lágrimas até, tentando me livrar do estoque de “Tristeza” que parecia infinito. No outro dia, fingia que nada tinha acontecido e ficava ali observando o céu cinzento enquanto evitava usar minha luneta.

Barco em meio ao mar

Não tinha aonde ir. Talvez se eu me esforçasse, sairia daquela estranha calmaria. Talvez sim, se eu tivesse forças para remar, se o barco não estivesse tão pesado. Mas quanto mais eu olhava para o longe, mais eu sentia que nunca chegaria lá e mais eu percebia o quanto eu era diferente de todos aqueles barcos distantes. Eu nunca seria daquele jeito. Nunca haveria vento em minha popa. Remando ali, sozinho, só iria me cansar. E a “Solidão” era boa, reconfortante. Não precisava depender de ninguém e também não havia ninguém que dependesse de mim. Ali eu não teria a oportunidade de estragar a vida de alguém com essa minha carga suja. Pois quando eu andava com aqueles outros barcos eu apenas sentia que eu os fazia mal. Todos me rejeitavam, ninguém aceitava os meus produtos. Era melhor navegar sozinho com certeza para sempre do que arrumar uma companhia incerta que poderia levar o pouco de “Felicidade” que me surgia de vez em quando. Melhor a constância do que a mudança.

E daí aprendi a ser sozinho. Fingia que gostava do céu cinza e do balanço calmo das ondas. Toda “Dor” que chegava era guardada no porão, junto com o monte de “Tristeza.” Servia de lastro para me manter de pé. Ali eu fiquei por muito tempo, evitando chegar perto dos outros barcos. Sim, acabava me encontrando com alguns outros – até parecidos comigo – e trocava algumas mercadorias. Ouvia essas vozes diferentes e isso até me ajudava, me livrava de umas cargas ruins. Mas ainda havia algo que faltava. Uma parte da “Solidão” ainda estava ali. E eu ainda fingia que era boa.

Então, senti um vento estranho. Uma brisa nova que não me lembrava de já ter sentido antes. Olhei ao redor e vi outro barco. Um que eu já tinha visto antes, mas nunca tão de perto. Um barco que trouxe consigo um pedaço de céu azul. Notei uma carga nova de “Felicidade” que nunca tive antes. Uma voz nova, diferente, que me tirou do silêncio que ocupava minha alma. Foi embora e deixou ali o céu azul e um bocado dessa “Felicidade.” Porém só durou um dia ou dois. Logo a carga acabou e as nuvens voltaram.

Ainda podia ver o barco ali, distante, mas tive medo de me aproximar. Quis mantê-lo como estava antes, apenas longe e sempre igual. Que tudo ficasse constante. A mudança era sempre o pior.

Mas o barco se aproximou de mim outra vez. Trouxe outra vez o pedaço de céu azul que permaneceu ali por um tempo. Quando o barco foi embora, me conformei. Porém notei que deixara uma carta. Uma simples despedida, mas que me fez notar ali uma carga nova. Não era tão nova, mas nunca tinha percebido até aquele momento. “Paixão,” dizia o rótulo. Só então acreditei que isso existia.

Meu barco foi coberto por uma tempestade diferente. Uma chuva que encheu meu barco de “Dúvidas.” Sentia que precisava tomar uma decisão, precisava forçar a mudança. E eu não queria mudar. Tive medo de que o barco partisse se eu tentasse ficar próximo demais. Talvez assustasse e fugisse. E isso eu não queria. Mas também já não estava satisfeito com o contato parco que tínhamos. A mercadoria que esse barco trocava comigo era algo que eu nunca recebera de mais ninguém. E também entreguei algo que estava ali no meu convés há muito tempo e nunca tinha dado a ninguém.

Tive medo da mudança ainda. Tentei tomar coragem, me aproximar mais uma vez, mas o barco precisava ir a outro lugar e eu não pude alcançá-lo.

Foi no meio da minha decisão de tomar um rumo e, aos poucos, fui remando numa mesma direção. Isso me atrapalhou, me distanciou do barco que eu queria ao meu lado, mas nisso eu já perdia a carga de “Esperança” e pelo menos meu caminho deixou o céu menos cinzento. Era mais fácil fingir que estava em paz.

Contudo, não resisti. Precisava tentar mais uma vez. A “Paixão” do meu convés nunca sumira. Tentei me aproximar, apesar de que ainda havia ali certa distância. Quis chegar cada vez mais perto, porém tive medo de bater, de assustar. Tive medo de que fugisse e eu perdesse o que me restava de “Esperança.” Mas então, quando eu menos esperava, foi o outro barco que se aproximou. Colou do meu lado, prendeu suas pranchas nas minhas, atravessou sobre o mar perigoso para alcançar meu convés superior. Foi até difícil acreditar, mas tinha acontecido. O céu ficara azul.

Temos os nossos próprios caminhos e o dia nunca dura para sempre. A distância era curta e a gente ainda se via pelas lunetas. Poucos dias faltavam para que nos encontrássemos outra vez, mas foi mais difícil de aguentar do que todos os outros meses de separação. Meu barco se encheu com aquele novo produto que eu não entendia. “Saudade,” dizia o rótulo. Antes só conhecia de nome. Acumulei meu estoque de “Carícias” para poder trocar.

Então nos vimos outra vez – de perto, sem lunetas – e notamos como os barcos eram iguais. Tínhamos cargas diferentes, mas parecidas. E o encaixe era perfeito, como se fôssemos feitos para navegar lado a lado.

Sempre fui péssimo para ver a carga dos outros. Tentei imaginar e percebi que tal barco poderia conter bastante “Dificuldade.” Notei também uma quantia de “Dúvida” – essa eu conhecia bem, pois já tive muita, mas era difícil reconhecer nos barcos alheios.

E fiquei sem saber o que fazer. Aquela carga nova e estranha que enchia meu barco era difícil de lidar. Eu teria de aprender a trocar as coisas certas para conseguir manter aquele outro barco sempre ao meu lado. Dá vontade de pedir toda a sua carga de “Dúvida” para deixar comigo, mas nunca é simples assim. Mas eu só queria deixar claro de que esse barco pode dividir tudo o que quiser comigo. Peso demais é perigoso, pode afundar. Sei, pois já cheguei bem perto disso.

Barco novo, estranho e confuso (tanto quanto eu), se vê isso que eu escrevo, saiba que pode confiar em mim. Farei sempre o possível (e o impossível, quando der) para que possamos navegar sempre lado a lado. Nossos destinos são incertos, mas sei que podemos chegar lá juntos. É só não desistir e esperar. Eu também ainda tenho um monte daquele “Medo” estocado no porão. Aos poucos a gente se livra dele, você vai ver. O tempo foi bondoso com a gente, não tem motivo para ele deixar de ser agora. Só preciso que você se lembre de que eu ainda estou aqui, navegando ao seu lado. Talvez não tão perto quanto pudesse ser, mas nunca mais longe do que antes. Nunca se esqueça disso, pois eu também não vou me esquecer.

Ah, e aquela carga de “Felicidade” que eu sempre tive medo de perder, pode levar contigo. Você já me trouxe tanta que acredito que nunca mais vai faltar.

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