Jéssica – Parte 1

Estava chovendo. Não era uma chuva forte, apenas uma garoa – daquelas que não dá vontade de abrir o guarda-chuva, mas te faz chegar todo molhado. Eu estava sentado ao balcão do bar, com um copo de rum na mão. Eu não gostava de rum, mas me fazia lembrar ela. Embora eu talvez devesse esquecê-la.

Ela tinha me deixado há duas semanas. Foi culpa minha, eu confesso. Não dei espaço a ela, fui possessivo e ciumento; tratei-a como não deveria. Eu só tinha medo. Medo de perdê-la, medo de ela me deixar. E foi isso que acabou acontecendo, por culpa do próprio medo. Irônico, sim, mas não foi engraçado. Longe disso, aliás.

Depois do acontecido, passei a ir ao bar todos os dias. Na esperança de esquecê-la e na esperança de encontrá-la. Ou, talvez, encontrar outra qualquer que me satisfizesse os desejos carnais por uma noite ou duas. Na verdade, eu nem sabia o que queria. E essa era uma das coisas que ela reclamava. “Você não sabe o que quer”, ela dizia.

Mas, agora – em uma nova ironia – eu sabia bem o que queria. Eu queria encontrá-la. Pensei em ligar para ela, cheguei até a pegar o celular, só que já passavam das duas horas da manhã e eu não poderia incomodá-la a esse horário. Na verdade, acho que não poderia incomodá-la em horário nenhum. Alguém sentou ao meu lado enquanto eu encarava o telefone.

— Coração partido? – ela perguntou.

Eu me limitei a olhá-la nos olhos e acenar a cabeça. Ela era bonita, mais do que eu estava acostumado a ver por aquelas bandas. Pensei que seria mais outra qualquer para aquela noite, porém não seria capaz de fazê-lo. Não depois de me lembrar de tudo que fiz com meu amor. Não usaria alguém só para me satisfazer.

— Imaginei – ela continuou. Você vem aqui todos os dias e pede a mesma bebida. No começo pensei que fosse mais um alcóolatra, só que ninguém assim bebe apenas um copo. Mas teve outra coisa que me fez reparar em você.

— O quê? – confesso que ela incitou minha curiosidade.

— Você é o único daqui que passa por mim sem me comer com os olhos. Você é diferente. Ou é gay, sem ofensas.

Não me senti ofendido. Geralmente ficaria nervoso com tal tipo de comentário e partiria para a agressão. No entanto, no estado em que me encontrava aquilo parecia não fazer diferença. Resolvi ser sincero, precisava desabafar – e não tinha com quem fazer isso.

— Não sou. Só que ando bem distraído ultimamente. Parece que as coisas não tem mais importância. Sinto como se o mundo tivesse desmoronado e só sobrassem os destroços. Tudo parece em preto-e-branco, sem cor, sem vida.

— Corações partidos e bebidas alcóolicas fazem os maiores poetas. Conte-me sobre ela, se não se importar.

— Na verdade eu queria esquecê-la, mas já que não consigo… – respirei fundo antes de continuar. Ela era linda, ou melhor, ainda é. Seus cabelos negros como a noite que descem até a cintura e brilham ao luar. Seus olhos azuis como o céu límpido, que perdem o brilho quando ela fica triste. O sorriso dela me fazia esquecer o resto do mundo. Mas faz tempo que não o vejo. Já há muito tempo seus olhos permaneceram cinzas por minha culpa. Preocupei-me tanto comigo mesmo e com o medo de perdê-la que me esqueci de fazê-la feliz.

Parei. Não consegui continuar. Não tinha percebido que as lágrimas já tinham começado a cair. Era a primeira vez desde que ela partiu. Cobri os olhos com a mão e tentei pedir desculpas para a moça, porém a voz não saiu. Ela não disse nada até que eu me acalmasse.

Continua.

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