Epigrama

Pronto.

Acabou a dor. Pensei que meus pulmões fossem explodir. Talvez tenham explodido mesmo e eu nem percebi. Mas agora não faria mais diferença, já que não vou mais usá-los. Agora todas as dores fazem parte do passado.

Confesso que foi um pouco incômodo ficar pendurada ali por algumas horas. Fiquei balançando por um bom tempo. Se fosse possível, com certeza estaria enjoada. O relógio mantinha seu tique-taque constante e a geladeira ligava o motor de tempos em tempos. Fora isso era silêncio. Um silêncio estranho, como nunca tinha ouvido – ou deixado de ouvir – antes. Sem vizinhos reclamando, sem crianças gritando, sem cachorros latindo e sem carros buzinando. Tudo sumira – era como se tivessem fugido junto com a dor.

Até que um som interrompeu o silêncio e sobrepujou relógio e geladeira. Por impulso, tentei atender ao telefone que tocava, porém em um instante percebi que não poderia. Ainda estava pendurada lá, no escuro quase completo – quebrado por LEDs dos equipamentos eletrônicos. Se não me engano, houve onze toques antes de o aparelho silenciar-se novamente. Depois voltou tocar, num ciclo que parecia interminável, mas durou apenas poucos minutos.

Nunca pensei que aquela espera seria tão entediante. Deveria ter avisado alguém, mas sei que me impediriam. Não podia correr tal risco. Não aguentava mais a dor. O tédio não era nada perto da dor. Muitos diziam que era apenas coisa da minha cabeça. Talvez fosse mesmo, mas mesmo assim estava lá. Agora consegui livrar-me dela, de uma vez por todas. Foi uma solução eficiente.

Horas depois, após milhões de tiques e taques – está bem, não foram milhões, mas pareceram – houve uma batida na porta. Aliás, não apenas uma, porém várias em sequência. No começo, bem fracas; depois, mais intensas. Alguém chamou meu nome. Reconheci a voz, entretanto agora tudo parecia muito distante, como se eu nem estivesse ali. Talvez não estivesse mesmo.

“Você está aí?” perguntou a voz. “Não sei”, quis responder, sem sucesso. “Sei que você está aí, abra a porta”, continuou a voz. “Não posso”, não consegui dizer. As batidas cada vez mais enfurecidas. Meu nome foi dito outra vez. Nem arrisquei responder – sabia que não seria possível. No dia anterior, no entanto, nem faria questão de replicar, mesmo que pudesse. “Estou preocupado contigo. Você está bem?”. “Agora estou”, evitei a tentativa. Ou não estava, sei lá, que diferença fazia.

“Abra a porta”. Você já disse isso. Se eu pudesse abrir, já teria o feito. Admito que era frustrante não conseguir fazer uma coisa tão simples quanto falar. Pudera eu dizer apenas uma frase. “Vá embora” era a mais fácil, mas nem iria adiantar. Eu o conhecia e sei que não desistiria.

TUM! Um estrondo. Antigamente me assustaria, todavia não tive reação. TUM! Outra vez. Percebi que era a porta – só podia ser. TUM! Não sei se a madeira aguentaria mais um. Esse demorou mais, ele deve ter pegado distância. TUM! CRACK! Arrebentou. Já sabia que seria assim.

“Ah meu Deus!”. Estranho. Mesmo naquela hora, tinha me esquecido de Deus. No momento em que todos dizem lembrar-se dele. Nada mais justo, visto que ele sempre me esquecera. Uma expressão de espanto. Levou a mão à boca aberta. Acho que ele não sabia o que fazer, já que ficou lá parado por um tempo.

Quando recuperou o fôlego correu até cozinha. Sei disso, pois era perceptível que ele mexia nas gavetas. Som de talheres ocupou o ambiente por um momento. Ele voltou correndo, acendeu, enfim, a luz da sala e arrumou a cadeira – que eu derrubara há sei lá já quanto tempo – e subiu nela. Cortou a corda com veemência, ofegante. Cheguei a me questionar se a lâmina estaria cega, mas foi só por alguns segundos, pois logo desabei.

Ele teve dificuldades em segurar meu corpo molenga, mas não me deixou cair. Deitou-me com cuidado no chão e, ajoelhado ao meu lado, me olhou de novo com aquele olhar de quem não sabe o que fazer. “Ah meu Deus, ah meu Deus”, ele repetia. Até que enfim levantou-se e correu em direção ao telefone. Discou alguma coisa e esperou ansioso por alguns segundos.

“Alô, preciso de ajuda”, ele falava – quase gritava – ao aparelho. “Ela se enforcou, não sei há quanto tempo está aqui. Está roxa, não sei o que fazer; preciso de ajuda!”. Percebi que ele ditou meu endereço. Acho que não será mais meu endereço, agora que paro para pensar. Colocou o telefone na base e voltou a se ajoelhar perto de mim.

Ele botou uma mão em meu peito. Estranho que, antigamente, isso faria meu coração palpitar. Agora continuava parado como estava já há um tempo. Talvez se esse toque viesse antes, fizesse a dor parar. Quem pode saber? Mas já é tarde de mais. Não faz mais diferença.

Então ele se aproximou, deixou o ouvido bem colado ao meu nariz. A orelha dele estava fria. Ou o frio vinha de mim? Não sei dizer com certeza. Queria que ele ficasse próximo assim há mais tempo. Acharia melhor se ele não tivesse esperado tanto. Preferiria sentir o calor, só que agora tudo era frio. Sobrara apenas o vazio. E lágrimas. Não minhas – já havia chorado demais – mas dele. Chorou sobre meu corpo frio, perguntado sem parar: “por quê?”. Queria que ele tivesse perguntando antes, quando eu ainda podia responder.

Passaram-se alguns minutos – ou talvez horas – até que surgiram as sirenes. A princípio bem baixinho, em seguida aumentando de volume. Ele ainda chorava; debruçado sobre o que restava de mim. Pouco tempo depois, vieram os homens. Policiais, bombeiros e enfermeiros tomaram conta do apartamento. Tiraram ele de perto de mim – à força, visto que ele não quis sair. Queria que antes houvesse tal vontade de estar próximo.

Os homens me cercaram, checaram meus extintos sinais vitais e confirmaram minha morte. Já não era sem tempo. Um monte de gente andava pela sala. Um tirava fotos, outros coletavam evidências, enquanto alguns se perguntavam o que teria acontecido – e eu pensei que tivesse deixado claro. Ficaram um bom tempo lá, uma chateação só. Ele ainda estava chorando.

Colocaram meu corpo frio em um saco preto e fecharam com zíper. Largaram-me de qualquer jeito dentro do rabecão. Fui sacolejando durante toda a viagem – enjoaria mais ainda do que com o balanço da corda; novamente se fosse possível. Não sei quanto tempo durou a viagem; estranho notar em como perdi totalmente a noção de tempo. Não conseguiria dizer o quanto se passou desde aquele momento em que a dor acabou.

Daí em diante foi só chateação. Um tédio de autópsia; colocaram uma etiqueta no meu pé e fiquei numa gaveta por mais um bocado de tempo. Até que me pegaram para passear de novo. Antes eu não costumava sair tanto assim, se bem que agora não vou mais voltar ao meu apartamento. Colocaram-me dentro de uma caixa de madeira almofada. Agora sabia para onde iria: meu funeral.

Não pensei que conhecesse tanta gente assim. A maioria dos presentes era composta de antigos colegas de escola ou de trabalho. Exceto pela minha mãe, não havia nenhum parente. Ela, coitada, chorava num canto. Não é que eu não tivesse pensado nela antes, mas não foi o suficiente, faltavam outras coisas. Algumas pessoas a reconheciam e tentavam consolá-la. Outros também choravam, mas era mais pelo clima lúgubre do que pela minha morte.

Ele também estava lá. Bem ao lado do caixão, ainda se perguntando: “por quê?”. Eu é que queria saber o porquê. Por que toda aquela gente não apareceu antes pra me dar suporte quando eu precisava? Por que ninguém veio me visitar em tantas noites que me senti sozinha? Por que as pessoas com quem eu me importava não pareciam retribuir, mas agora choravam sobre meu cadáver? Se tivessem me procurado antes, nada disso teria acontecido.

Só que agora era tarde demais. Enquanto eles velavam minha morte, eu deixei de me importar com eles. Agora nada mais me preocupa, mesmo que eu me esforce a me interessar. Tudo é vazio e distante, como se não existissem – ou como se eu mesma não existisse. Aquela dor no peito – que não me deixava dormir, nem trabalhar, nem me divertir – agora desapareceu. Nada mais me machuca, nem a presença e nem a falta.

Chegou a hora, enfim, do enterro. A partir daquele momento tudo seria estático para sempre. As pessoas continuariam com suas vidas. Logo se esqueceriam de mim – aliás, acho que já tinham esquecido. Para eles eu já era passado. Um dia ou outro, talvez, se lembrariam de mim; numa conversa de bar entre uma história e outra. “Lembram aquela menina que se matou?” é o que diriam. Mas logo voltariam a falar de futebol, de carnaval ou de alguma outra coisa alegre – ninguém gosta de histórias tristes. Será que ele ainda vai chorar por mim? Tanto faz.

Jogaram o primeiro punhado de terra sobre o caixão que continha meu corpo flácido. Depois mais um pouco. E de novo, até que foi coberto completamente. Uma lápide com as datas de nascimento e morte. E uma frase gravada na pedra. Uma frase singela que deixei escrita num bilhete antes de tudo isso. Resolveram usá-la como epitáfio. “Eu só queria ter dito adeus.” Era verdade, mas agora – como para todas as outras coisas – era tarde demais. Todos foram embora. Mas agora não fazia mais diferença. Pelo menos a dor acabou.

Pronto.

(Este conto foi feito em resposta a um “desafio” do Dalleck. Ele me deu o tema “narrar própria morte a partir do momento em que para de respirar até a hora do enterro”. Foi meio difícil e esquisito escrever, mas saiu.)

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