A Festa das Luas – Parte 1

Finalmente, pensou. Depois de quase um ano esperando, finalmente poderei reencontrá-la. Ele mal conseguira dormir na noite anterior, esperando o momento chegar. A Madjekimim Kiprah voltava a acontecer e esta era a primeira oportunidade que ele teria de rever Carolina desde a edição do ano passado – eles conversaram apenas por telefone e internet desde então.

— No ano passado, pensei que seria a última vez que você iria pra essa festa – disse Carlos, quando chegou para dar uma carona a Roberto.

— Pois é; eu também. Mas nesse intervalo não tive oportunidade de encontrá-la. Nunca pensei que ela fosse tão ocupada. Pelo menos hoje ela arranjou algum tempo.

— Espero que dê tudo certo. E, quem sabe, talvez eu possa conhecer alguém esta noite.

— Sim, com certeza sua hora vai chegar.

Eles chegaram ao local da festa pouco antes do décimo-segundo mide e o lugar já estava bem movimentado. O evento acontecia a céu aberto num grande terreno (nada mais natural para uma dita Festa das Luas) e que seria completamente vazio se não fosse o casarão ao centro, além dos bares montados nos cantos. O acesso a tal construção não era proibido, porém a maioria das pessoas preferia o ambiente externo, especialmente naquele clima agradável de primavera.

— Muitas garotas bonitas por aqui dessa vez – disse Carlos – tomara que eu conheça alguém especial.

Os dois deram uma volta pelo lugar e aproveitaram para passar no bar para beberem alguma coisa. Roberto olhava de um lado a outro tentando encontrar Carolina, mas não obteve sucesso.

— Ei – começou Carlos após algum tempo, apontando para um par de garotas que estava ali perto – o que acha daquela loira ali?

— É bem bonita – Roberto respondeu, ainda um pouco distraído por sua busca.

— E a amiga dela também é, apesar de eu achar que aquele cabelo violeta seja falso. Vamos lá falar com elas.

— Ah, você sabe que eu tenho que encontrar a Carol.

— Não estou lhe pedindo pra casar com a moça, só precisa distraí-la enquanto eu converso com a amiga dela.

— Não sei… – Roberto contorceu os lábios.

— Por favor, porque você veio comigo, afinal? Vamos lá, elas estão olhando para cá.

— Hm… tudo bem. Vamos.

Então eles foram em direção as duas. Ambas eram brancas, quase pálidas; a loira, por quem Carlos se interessara, tinha olhos cor de safira e estava bem arrumada e maquiada, a despeito de sua amiga dos cabelos e olhos violeta.

— Olá – Carlos cumprimentou-as, dedicando seu olhar à garota que lhe chamara a atenção.

— Oi – ela respondeu, enquanto que sua amiga apenas deu um pequeno aceno e um meio sorriso.

— É um prazer conhecê-las. Eu sou Carlos e ele é o Roberto.

— Somos Amanda – apontou para si mesma – e Júlia – concluiu, indicando sua amiga.

— Vamos pegar uma bebida?

Júlia recusou prontamente, mas Amanda não hesitou em aceitar. Roberto entendeu a deixa para permitir que os dois ficassem a sós, mas se sentiu ligeiramente desconfortável pela nova companhia. Olhou-a de viés, meio sem graça, percebendo que ela ainda observava o casal que se afastava. Demorou certo tempo para ela voltar seu olhar para ele.

— Eh… – ela começou, embaraçada – sinto desapontá-lo, mas eu só vim aqui para acompanhar minha amiga. Não tinha intenção de realmente conhecer alguém. Não pense que é algo pessoal.

— Na verdade… – Roberto sentiu-se aliviado e tencionou contar sobre o real motivo pelo qual estava lá, porém mudou de ideia – Na verdade eu também só vim pra fazer companhia.

— Que ótimo! Se é assim podemos conversar sem compromisso enquanto esperamos os dois se entenderem.

— Eh… acho que sim – Roberto hesitou, imaginando o que faria se visse Carolina enquanto conversava, mas como ainda não a tinha visto, pensou que passar o tempo conversando não seria uma ideia ruim.

— Está combinado então. Roberto, não é? Perdoe-me se eu esquecer, não me dou muito bem com nomes.

— Tudo bem. Você não esqueceu, pelo menos por enquanto – ele soltou um pequeno riso sem dentes.

Os dois foram até um banco próximo para se sentarem enquanto esperavam. Roberto tentou disfarçar que procurava alguém, mas de tempos em tempos olhava ao seu redor, esperando uma visão de quem procurava.

— O céu está bonito hoje, não? – Júlia quebrou o silêncio.

— Verdade – Roberto voltou os olhos para as luas, mas o pensamento permaneceu em outro lugar.

— Amanda disse-me que quando ambas as luas estão cheias durante a Kiprah é sinal de boa sorte, pelo fato da iluminação maior ou algo assim. Eu, particularmente, não acredito em tais superstições. E ela não disse nada sobre esse eclipse de Miniel. Isso também devia significar algo, não?

Soitlamim Madje.

— O que disse?

Soitlamim Madje – repetiu –, a Lua de Sangue. Eu também não sou supersticioso, mas era assim que os antigos chamavam esse fenômeno, pois a lua fica avermelhada. Eles acreditavam que tais noites seriam marcadas por derramamento de sangue. Do jeito que eles eram bárbaros, no entanto, acho que todas as noites eram assim.

— Interessante; essa história eu não conhecia. Ei, o que está acontecendo ali?

Roberto notou a comoção próxima ao bar. Um grupo de pessoas cercava algo que ele não conseguia ver daquele ângulo. A agitação era grande e ele pôde perceber que estavam gritando. Parecia que alguns incentivavam enquanto outros desestimulavam a ação.

— Parece ser uma briga – Roberto comentou, por fim.

— Realmente. Será que alguém se machucou? Vamos lá ver.

Júlia não esperou a resposta e se levantou, indo em direção ao tumulto. Roberto a seguiu sem pensar.

Chegando ao local da agitação, ele pôde ouvir um homem, claramente embriagado, gritando contra outra pessoa. Não conseguiu entender o que dizia até estar no meio da multidão.

— …bou-a de mim! Ela é minha! Você é um maldito ladrão! Soitlamim Solári! Soitlamim Solári!

— Você sabe o que ele disse? – Júlia perguntou, virando-se para ele, mas ainda tentando avançar pelo tumulto.

— Sacrifício de Sangue. Parece que ele conhece a cultura dos antigos nortenhos.

— Isso não é nada bom…

Aproximando-se ainda mais, Roberto foi capaz de notar que o sujeito segurava a metade partida de uma garrafa de vidro. Realmente, isso não é bom. O rapaz contra quem o outro gritava parecia tentar ignorá-lo, mas não pôde evitar quando o tal se aproximou demais. Ele conseguiu segurar a mão que portava a arma improvisada e, movendo o outro braço, deu-lhe um soco no rosto, nocauteando o outro com apenas um golpe.

A multidão urrou em uníssono por um instante e, aos poucos, começou a se dispersar. Tudo pareceu se acalmar e só então Roberto reparou que o rapaz tinha o braço ensanguentado por motivo de um corte próximo ao cotovelo. E, então, percebeu que Júlia já estava examinando o ferimento.

— Foi um corte profundo – ele a ouviu dizer – vai precisar de sutura. Ei, você – ela apontou para um dos que ainda observavam – faça o favor de chamar uma ambulância. – voltou a virar-se para o ferido – E você venha comigo, vamos lavar isso e ver se não restou algum fragmento de vidro.

— Você é médica? – o rapaz perguntou.

— Ainda não, mas estou cursando. Penso que sou o mais próximo de uma médica que há por aqui. Venha, vamos cuidar desse ferimento.

Os dois partiram e Roberto não pôde deixar de notar que ela se esqueceu dele completamente. Não tinha certeza se ela ainda pensava na história que ele lhe contara sobre a Lua de Sangue, mas ele não deixou de estranhar tal coincidência. Então ele lembrou seu motivo para estar naquela festa e voltou a andar por aí em busca de Carolina.

Puxou o aparelho celular do bolso, esperando alguma mensagem – talvez uma ligação perdida – indicando que ela já estava por ali, porém não havia nenhuma notificação. Andou por vários minutos, passando muitas vezes pelos mesmos lugares. Então olhou para a grande casa no meio do terreno e percebeu uma janela no alto, próximo ao teto. Pensando que lá seria um bom lugar para observar o movimento, entrou no casarão e subiu suas escadas até o sótão, onde a tal janela se encontrava.

O lugar tinha um espaço bem apertado – ele nem conseguia ficar ereto. Entretanto, a vantagem é que ele conseguiu sentar-se no chão enquanto observava através da abertura. Ficou lá por horas, porém não viu nenhum sinal de quem procurava. Desolado, permaneceu lá pensando no que dera errado. Ficou preocupado, com a dúvida de algo ruim pudesse ter lhe acontecido. Ou talvez ela não pudesse vir – quem sabe até esquecesse o compromisso.

Já passava do décimo-sexto mide quando ele percebeu que alguém abria o alçapão que dava acesso ao sótão em que se encontrava. Ficou surpreso – mas evitou demonstrá-lo – quando ele notou que era Júlia quem entrava.

— Uau! – ela exclamou – Você é mesmo bom em se esconder. Há quanto tempo está aqui?

— Não sei… – percebeu a voz falhando e pigarreou antes de continuar. – Deve fazer algumas horas.

— Esse era o último lugar em que eu pensaria em te encontrar. Achei que tivesse indo embora, mas seu amigo insistiu que você não sairia sem avisá-lo.

— Ele estava me procurando?

— Sim. Ele quer partir; em breve o sol vai nascer e acredito que ele já encontrou o que, ou quem, ele queria.

— Diga-lhe que já pode ir. Eu moro aqui perto, posso ir a pé; então vou esperar mais um pouco.

— Hm… parece-me que você ainda não encontrou quem queria. Levou um bolo?

— Ele lhe disse que eu esperava alguém?

— Não; e nem precisava. Acha que não notei como olhava por aí procurando alguma coisa? Além do mais, o que faria aqui em cima se não fosse para ganhar uma boa visão da festa?

— Parece que não é fácil lhe enganar. Realmente, combinei de encontrar uma garota, mas ela não apareceu. Pensei em ligar para ela, só que não tive coragem.

— Tem alguma foto dela? Eu enxergo bem, talvez possa localizá-la daqui.

— Acredita que terá sucesso no que eu falhei?

— Eu te achei aqui, não? Vamos lá, me deixe tentar.

Ele hesitou antes de pegar o celular do bolso. Encontrou uma foto deles dois que tirara no ano anterior. Sentiu uma pontada de saudade e ficou observando a imagem por alguns instantes, antes de mostrá-la para Júlia. Ela olhou a foto por um momento, franziu a testa e aproximou-se da pequena janela. Girou o olhar em volta do ambiente e logo levantou a mão, apontando.

— Ela está bem ali, sentada naquele banco, vê? Pelo jeito que olha parece que também está procurando por você.

Roberto não acreditou. Apertou os olhos e, por um momento, aquilo parecia um sonho. Pensou que ficou tanto tempo ali parado que começava a ter alucinações. Olhou, então, para a garota a seu lado.

— Como você fez isso?! – ele estava impressionado com a facilidade que ela tivera para executar a tarefa.

— Disse que enxergo bem. Vá logo falar com ela; eu explico pro seu amigo.

Ele não pensou duas vezes. Levantou-se rapidamente – por pouco não bateu a cabeça no teto – e sentiu um formigamento nas pernas. Desceu as escadas com o máximo de pressa e andou o mais depressa possível entre a aglomeração dos presentes. Ela levantou-se quando o viu, mas ficou parada esperando ele se aproximar. Ele abriu um largo sorriso e a abraçou tão cedo e tão forte o quanto pôde. Quando a largou para olhar em seus olhos, porém, percebeu que ela não retribuía tal entusiasmo.

— O que aconteceu, Carol? – ele perguntou.

— Beto, eu sinto muito.

Roberto ficou calado. Seus braços que ainda a tocavam perderam as forças e foram trazidos abaixo pela gravidade. Seus lábios não se fecharam, mas o sorriso havia sumido. Sentiu seu coração acelerar e sua respiração tornou-se ofegante.

— Eu não queria que acontecesse – ela continuou –, não planejei nada, mas aconteceu. Eu conheci outra pessoa. Já faz alguns meses, na verdade, só que não sabia como lhe contar. Nós estávamos tão afastados, nunca conseguíamos nos encontrar, e eu precisava de alguém ao meu lado, sabe? Eu precisava de contato e isso você não podia me dar. Sei que foi por falta de oportunidade e não de vontade, porém o destino botou essa outra pessoa na minha vida, alguém muito mais próximo. Apesar de você e eu conversarmos bastante, não podemos dizer que éramos mais do que amigos. Não me entenda mal, eu gosto de você e nossas conversas me ajudaram muito, não sei onde estaria se não tivesse te conhecido. Só que agora eu tenho alguém para estar ao meu lado e me aquecer nas noites frias. Não pense que os próximos anos serão diferentes do que passou, acredito que vai ser ainda mais difícil nos encontrarmos. Sinto muito por não ter conseguido lhe contar antes e por te fazer vir aqui com uma falsa esperança. E me desculpe por me atrasar, tentei chegar mais cedo, mas não consegui. Até temi que você já tivesse ido embora. Enfim, sinto muito.

Ele não sabia o que dizer. Ficou parado ainda, calado, em choque, tentando processar o que acontecia. Não ousou interrompê-la, apesar de sentir uma dor como uma punhalada a cada palavra que ouvia. Pensou em gritar, insultar, bater; mas eram apenas pensamentos e não seria capaz de fazer tais coisas.

— Bem – ele disse, finalmente –, não posso dizer que esperava ouvir isso. Realmente, foi um baque para mim e não me sinto bem. Porém, se você está feliz assim e se isso é o melhor para você, acho que não temos outra opção. – Roberto evitava olhar em seus olhos – Mas não pense que poderemos continuar como amigos depois disso. Antes tivesse dito logo a verdade, eu entenderia. Posso imaginar seus motivos e entendê-los. Posso perdoar o que fez. Só que fica difícil esquecer tal coisa. É complicado confiar novamente em você. Se for mesmo isso o que quer, então vá. Mas, se for, não volte a falar comigo, por favor.

— Eu sinto muito, mesmo. Pareceu, por um momento, que tudo poderia dar certo entre nós, mas era apenas ilusão. Não tinha como isso acontecer. Sinto muito, mas terei que partir. Uma pena que não possamos mais ser amigos. Você salvou minha vida no dia em que nos encontramos, me deu um motivo para continuar nesse mundo. O destino nos reuniu com esse propósito e agora ele nos separa, é difícil de entender. Se tivermos que dizer adeus, então, infelizmente, que seja.

— O que quer que seja esse tal destino, não me importo, sabe que não acredito nessas coisas. Agora nossas vidas se separam, não importa se é destino ou opção. Infelizmente, tem que ser adeus.

Roberto, então, encarou-a com uma expressão austera, tentando demonstrar uma força que não existia. Seus olhos, porém, estavam bem úmidos, exibindo a tristeza que era aquela separação. Carolina ainda olhou-o por algum tempo e mostrou um condescendente quase sorriso. Depois abaixou o olhar e virou-se lentamente, caminhando em direção à saída. Virou, ainda, a cabeça para trás algumas vezes, observando-o tristemente, mas Roberto manteve-se estático até perdê-la de vista.

Sentou-se no banco, ainda baqueado pela situação. Não conseguia acreditar. O que há poucos minutos parecia um sonho, agora se tornara um pesadelo. Ficou lá por um bom tempo, tentando entender se aquilo era mesmo real. Soltou um suspiro e tentou renovar as energias. Levantou-se e decidiu que já era hora de ir embora. Os primeiros sinais da alvorada já despontavam no horizonte.

Surpreendeu-se ao ver Júlia sozinha encostada no muro próximo ao portão.

— Pelo jeito o encontro não foi muito bom.

— Dizer isso seria eufemismo. O que está fazendo aqui?

— Pra falar a verdade eu pretendia ir embora há algum tempo, mas o seu amigo insistiu que eu lhe desse uma carona. E Amanda uniu-se a ele nessa requisição, então não tive escolha a não ser te esperar. Sabia que passaria por aqui em algum momento. E chegou bem antes do que imaginei, aliás.

— Bem, não quero lhe incomodar, eu irei sozinho.

— Isso seria incomodar ainda mais. Já que fiquei aqui nesse meio tempo, faço questão de cumprir minha promessa. Venha, acho que a noite já acabou para nós dois.

Não houve resposta. Ele seguiu-a até o carro e sentou-se no banco do passageiro. Ambos se mantiveram em silêncio. Ele até queria desabafar-se com alguém, mas imaginou que aquela garota que ele acabara de conhecer não seria a pessoa ideal. Eles logo chegaram ao destino e Roberto espantou-se ao perceber que ele não tinha lhe dito o endereço, mas ela já sabia de alguma forma.

— Carlos te disse onde eu morava?

— Não aceitaria te dar uma carona sem saber pelo menos o endereço. Bem, até mais. Do jeito que os dois se deram bem é possível que nos encontremos novamente.

Ele olhou-a, mas não disse nada. Apenas fez um gesto com a cabeça, anuindo, então retirou o cinto de segurança e desceu do veículo. Ficou olhando para o portão de sua casa enquanto ouvia o carro distanciar-se, até reinar o silêncio absoluto do fim de noite.

E, finalmente, chorou.

(Agradecimento especial ao Dalleck que, mais uma vez, me deu ideia do que escrever.)

Notas:

Este texto se baseia no Universo que estou criando para escrever um livro. Este conto se passa antes da história principal do livro e não é requisito nem contém referências específicas ao roteiro do romance.

Espero que as palavras “estrangeiras” não pareçam tão esquisitas (mas tenho certeza que ninguém vai pronunciar corretamente). As referências a horários (o termo mide) não devem fazer muito sentido nesse momento, mas não são muito relevantes para o entendimento geral e só introduzi-as para dar uma amostra de uma cultura diferente (além disso, seria estranho usar horários proporcionais ao da Terra, porque tal diferença cultural desmereceria o significado relativo de um momento específico do dia [por exemplo: eles costumam almoçar depois da metade do dia e vão dormir por volta da meia-noite]). As passagens de tempo, no entanto, preferi deixar em horas, pois imagino que seria difícil entender o que é um mide nesse contexto.

Por último, a continuação desse texto será diferente do meu método habitual de extensão. A sequência ocorrerá no mesmo período de tempo, porém na visão de outra personagem.

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